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A Gestão de um Empreendimento Rural

(PUBLICADO NA REVISTA O BERRO)

José Walter da Silva (*)

O Brasil, embora seja das nações de maior potencial no mundo, ainda padece de alguns legados culturais por demais nocivos ao desenvolvimento de um país. Senão vejamos, o dinheiro público não é encarado com a seriedade necessária e o povo, ao que parece, pensa que está em outro barco, ou que esse recurso não saiu de seu bolso, dá pouco valor, quando se divulga os descalabros, as armações e os roubos claros e evidentes, principalmente por parte de alguns políticos e empresários, dentre os quais, representantes das lideranças nacionais dos poderes públicos, assim da elite, que deveriam dar exemplo e liderar movimentos para que possamos, um dia, ser um grande país, não só na extensão territorial.

Mas, enfim, o que poderemos fazer contra isto? Talvez votar melhor e cobrar dos eleitos suas propostas de campanha e não participar de armações que levam a quebra de valores essenciais. Mas não é este o assunto que nos propomos a colocar em discussão, neste pequeno relato, Vamos falar em gestão de um negócio agropecuário, ou gestão empresarial.

Acostumamo-nos, ao longo dos anos, a administrar nossas propriedades rurais, cuidando apenas das rotinas do dia-a-dia, sem a devida gestão, dependendo de fatores externos e climáticos apenas e pior, compramos, a preços altos, uma tecnologia equivocada, mercantilista e descolada da natureza e, hoje, temos as grandes empresas, principalmente multinacionais, vendendo-nos os insumos ao preço que querem e, via de regra, comprando nossos produtos, também a preços manipulados. E o governo insiste em não criar políticas e diretrizes agropecuárias que possam beneficiar o país e os produtores.

Mas vamos falar de nós, onde temos domínio e condições de resolver os problemas, muitos de fácil solução, mas despercebidos por nós. Aliás, quase nunca precisávamos de administrar e competir no meio rural. Tudo vinha, mais ou menos, de acordo com a natureza e as tecnologias eram muito desconhecidas e de difícil aplicação, mas dava para sobreviver nessa situação. Hoje, não dá mais. Se não houver competência desenvolvida, voltada para a tecnologia; se não adotarmos uma gestão adequada e se não focalizarmos o cliente, podemos trocar de atividade, com certeza.

É impraticável manter uma chácara, sítio, ou fazenda para fins de lazer apenas, a não ser em casos especiais e atitudes e práticas como as que vamos relacionar abaixo, apenas como exemplo, terão que ser abolidas de nosso meio:
  • Investir, sem o devido planejamento, pois poderá nos levar ao acaso e nosso dinheiro também;
  • Produzir, sem conhecimento do mercado e das condições se infra estruturas necessárias à colocação dos produtos;
  • Desacreditar nas novas tecnologias, como inseminação artificial, transplantes de embriões, biotecnologias, agricultura orgânica, sementes certificadas etc;
  • Deixar de fazer análise do solo e aplicar adubos pelo rumo, ou pelo conhecimento do passado apenas;
  • Manter um reprodutor, seja bovino, caprino, suíno, eqüino, ou ovino baseado apenas na sua beleza aparente. Isto é muito comum, perigoso e os prejuízos somente são conhecidos 5 a 10 anos depois;
  • Ficar reclamando da sorte, do clima, dos compradores, dos governos, dos preços dos insumos, dos concorrentes etc;
  • Deixar os produtos apenas por conta da natureza, seja no planejamento do plantio, seja nas especificações;
  • Adotar monocultura, independentemente das tendências estudadas, com base nas técnicas dominadas:
  • Vacilar na hora do manejo adequado e no descarte de animais que não atendem mais as necessidades e interesses do projeto;
  • Continuar na prática milenar do desperdício, por falta de atenção nas pequenas perdas e falta de foco nos resultados;
  • Desprezar a filosofia e as técnicas de apuração e administração de custos. Controlar despesas é, hoje, tão importante quanto produzir e vender;
  • Estar desatento e negligente em relação ao meio-ambiente e ecologia; à segurança patrimonial, do trabalho e pessoal e, ainda, em relação à criação de perspectiva e qualidade de vida para os homens e mulheres do campo;
  • Colocar o entusiasmo, este grande aliado, sozinho nos projetos, sem a devida inteligência emocional. Não conciliar a emoção com a inteligência, gera prejuízos , na certa. Não há feliz falido, tão pouco falido feliz;
  • Estar ligado penas na extensão de sua propriedade e no extrativismo, hoje fora de moda;
  • Manter propriedades improdutivas, que são verdadeiros sumidouros de recursos;
  • Fazer o que não gosta e o que não traz prazer, ou satisfação, pelo menos na maioria do tempo;
Bom, não é nosso costume trabalhar com ênfase no negativo e este relato pode estar sendo uma exceção, mas com o objetivo claro de nos propiciar um alerta. Nenhuma atividade técnico/econômico/social pode ser exercida hoje sem atenção especial em três fatores que são: busca incessante da tecnologia, atendimento adequado ao cliente e gestão do negócio.

A propósito, há cerca de três anos, foi noticiado que uma produtora de café do Leste de Minas Gerais, em Manhuaçu, havia ganho um prêmio internacional, pela qualidade superior de seu café e o vendeu a mais de R$400,00 a saca, quando o preço de mercado não passava de R$120,00. Isto causou uma certa espécie, principalmente no Sul de Minas, considerada a região de melhor café do Brasil. O sucesso veio em função da implantação de um sistema de Gerência pela Qualidade Total (GQT).

Mas isto não é coisa de empresa grande, ou órgão governamental (os competentes), ou modismo importado do Japão? Pode ser tudo isto, mas pode também ser adotado até por um vendedor de pipoca, o que dirá, então, num empreendimento rural, atividade bastante complexa e diversificada até. Registra-se que este concurso já se repetiu, em 2001, contemplando dois ganhadores do Sul de Minas. Um deles tem o hábito de não poluir sua propriedade com agrotóxicos. Este é o futuro, pensamos.

Já ouvimos algumas pessoas dizendo: são casos isolados e não podem ser tomados como regras. Certo, mas porque, então, não fazer de sua propriedade rural um caso isolado. Um caso isolado aqui, outro ali, poderá ir sedimentando a qualidade no meio rural, mas é preciso e é urgente que tiremos todas as negativas das quatorze citações dadas como exemplo, acima. E sejamos mais competentes e profissionais, no exercício de nossa atividade.

È preciso que, nós empreendedores rurais, administremos, de fato, nossa propriedade, criemos unidade de pensamento para combatermos monopólios como o da caixinha de leite, já debatidas nas CPI`S do leite, em alguns estados mais combativos; livremo-nos de armadilhas criadas por grandes empresas, sobretudo multinacionais e cobremos dos governos ações concretas, em prol da agropecuária da país.

(*) José Walter da Silva é Caprinocultor, do Rancho das Cabras, em Poços de Caldas, MG e Presidente da Associação de Turismo Rural do Sul de Minas (ASTRAL)
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